Éramos arquitetos de uma casa invisível

Cada abraço era um tijolo colocado sem pressa, na certeza ingênua de que haveria sempre argamassa e tempo pela frente. A reunião familiar era o teto que nos protegia da vastidão do mundo. O café compartilhado, a janela pela qual entravam os raios da manhã comum. A comida, o beijo, a discussão. Tudo era mobília do lugar que habitávamos sem saber: o Presente Perpétuo.

Não percebíamos que estávamos, na verdade, construindo sobre areia movediça.

O que chamávamos de “rotina” era, na verdade, uma cerimônia sagrada disfarçada de banal. A última vez que você ajudou sua mãe a secar a louça, e ela reclamou do modo como você enxugava os copos. Aa
quilo não foi uma irritação banal. Foi um hino. Um cântico de duas vozes entrelaçadas no ritual mais antigo: o cuidado. E ninguém avisou que era a última estrofe.

O “até logo” dito com pressa na porta, enquanto você ajustava os fones de ouvido, não carregava uma placa dizendo “Este é o adeus definitivo”. Era apenas mais um ponto final em uma frase que acreditávamos ser um longo parágrafo.

O perigo não está no fim, mas na cegueira do meio. Dançamos sem saber que a música estava prestes a parar. Brigamos como se houvesse todo um amanhã para pedir desculpas. Deixamos o “eu te amo” engasgado na garganta, adiado para um momento mais digno, mais dramático, mais… cinematográfico. A vida, porém, não obedece a roteiros. Ela é uma conversa que é interrompida no meio de uma palavra trivial.

Eis a verdade mais humana e dilacerante: a vida não é feita de grandes despedidas. É feita de últimos. Pequenos, imperceptíveis, desperdiçados. O último café que esfriou enquanto vocês riam. O último abraço que foi um pouco mais solto, porque um de vocês estava com pressa. O último olhar trocado através do vidro de um carro que se afastava na rua.

Não há sinos dobrando. Só o silêncio que se instala depois, quando você tenta se lembrar do gosto daquela comida, da textura daquela camiseta no abraço, do som exato daquela voz dizendo seu nome. Percebe, com um frio na alma, que sua memória já está começando a apagar os detalhes.

A tragédia não é a partida. A tragédia é não ter sabido que você estava, naquele instante banal, segurando pela última vez um fragmento do céu.

Portanto, hoje, agora: olhe. Olhe com uma intensidade quase dolorosa para o rosto à sua frente. Sinta o calor da mão que você segura. Ouça, de verdade, a história que te contam pela milésima vez. Celebre a monotonia gloriosa de ter alguém para quem dizer “bom dia” todos os dias.

Construa sua casa invisível não sobre a areia do “para sempre”, mas sobre o granito sagrado do “enquanto há”. Porque o último abraço não avisa. Ele apenas se transforma, silenciosamente, em saudade. E a saudade é a prova de que amamos, mas é também a cicatriz de que não soubemos, a tempo, que estávamos amando pela última vez.

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